quinta-feira, 31 de março de 2011

Começando de novo: A democracia definitiva




Não votou nos palhaços que estão no governo? Junte-se ao clube. Graças à natureza competitiva das democracias eleitorais, muitos – geralmente a maioria – cidadãos acabam sendo governados por um partido no qual eles não votaram. No entanto, existe uma maneira de garantir que cada indivíduo fique satisfeito com os resultados de uma eleição: basta cada cidadão ser governado pelo partido político no qual votou durante as eleições.
A idéia não é tão improvável como pode parecer, afirma Olivier Ledoit, um economista da Universidade de Zurique, na Suíça, que propõe a, assim chamada, “democracia de escolha”. “Não tem problema nenhum, apesar de ser um pouco diferente”, considera ele. Afinal de contas, a Nova Iorque metropolitana se espalha por três estados e muitas municipalidades diferentes. Dessa forma, trabalhadores em mesas adjacentes podem pagar impostos muito diferentes e desfrutar de serviços governamentais diferentes. E muitos muçulmanos no Reino Unido resolvem suas disputas em cortes sharia, que coexistem com o sistema jurídico britânico.
Poderia funcionar assim: antes de uma eleição, cada partido político apresentaria seus princípios de governo – quais serviços fornercerá, como seus impostos serão estruturados, quais políticas sociais perseguirá, e assim por diante. Depois da eleição, cada votante paga impostos ao partido no qual votou e recebe um determinado conjunto de serviços – subsídios culturais e educacionais, por exemplo, ou seguro-desemprego – até a próxima eleição. Para isso seria necessário acabar com o voto secreto. Em determinadas coisas, os partidos podem escolher se unir para governar serviços específicos – a defesa, por exemplo, ou os sistemas monetários – onde economias de escala são importantes.
A idéia pode reduzir a demagogia, observa Ledoit, porque um partido que realizou uma campanha baseada em uma plataforma bastante desejável, mas impraticável, seria obrigado a fazer o que prometeu depois da eleição. Satisfação total garantida para os votantes.

Truque quântico pode levar a radar furtivo


Fonte: New Scientist

Os sistemas de radares furtivos (stealth) e a habilidade de transmitir grandes quantidades de dados através de longas distâncias estão mais próximos graças a uma técnica que poderia melhorar a eficiência da ótica moderna por um fator de 1000.
Os métodos tradicionais de transmissão de dados, como a fibra-ótica e os radares a laser, requerem cerca de 100 fótons para transmitir um único bit de dados. Agora, uma equipe liderada por Saikat Guha, da Raytheon BBN Technologies em Cambridge, Massachusetts, afirma ser capaz de transmitir 10 bits em um único fóton – uma melhoria de mil vezes.  
Para fazer isso, os pesquisadores exploram um fenômeno conhecido como emaranhamento, no qual o estado quântico de um fóton é ligado ao de outro, independentemente da distância existente entre as partículas. Uma vez criados, cada par emaranhado de fótons é separado ao se passar um feixe laser composto dos próprios fótons através de um filtro feito a partir de um cristal não-linear. Isso divide o feixe em dois, de modo que cada um dos feixes de saída possua um dos fótons de um par emaranhado.
Agora a equipe está desenvolvendo transmissores que dispararão um dos feixes contra um alvo, enquanto mantém o outro próximo ao transmissor. Quando um fóton atinge o alvo, ele quica de volta na direção do transmissor em um processo que altera a partícula. Quando retorna para o detector, o fóton alterado não está mais estritamente emaranhado com seu par, mas Guha afirma que sua equipe já demonstrou que “ainda existe alguma memória remanescente que permanece entre os dois fótons”.
Os pesquisadores esperam conseguir informações sobre o alvo (sua distância, tamanho e velocidade), baseados nas mudanças das propriedades do fóton recapturado – como sua polarização, frequência e momento linear – quando comparado com seu parceiro.
A equipe mostrou em experimentos realizados em laboratório que esse método pode ser usado para coletar mais dados de cada fóton do que os métodos convencionais. Isso significa que uma quantidade significativamente menor de luz é necessária para que se consiga a mesma qualidade de imagem de um radar a laser convencional.
“Se você fizer isso com menos energia [luminosa], o objeto que você estiver interrogando nunca saberá que está sendo avaliado”, observa Alexander Sergienko, da Boston University, que não se envolveu na pesquisa. “É por isso que a DARPA está interessada”. Em agosto de 2010, a Raytheon recebeu US$2,1 milhões da Agência de Pesquisas em Projetos Avançados de Defesa (DARPA, em inglês) dos EUA para desenvolver a tecnologia.         
A tecnologia também poderia ser usada para transmitir dados a taxas maiores do que as da luz convencional ou das transmissões de rádio. No entanto, desenvolver transmissores e receptores para as duas aplicações será difícil, pondera Sergienko. “Conhecemos a ciência, mas na prática é muito difícil fazer isso”, avalia ele.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Nenhum Buraco Negro no Grande Colisor de Hádrons


Atualização provavelmente será atrasada para capturar a partícula de Higgs

Por Geoff Brumfiel

Fonte: Nature




Nada de buracos negros por aqui: o Solenóide Compacto de Múons. (Crédito da imagem: M. Brice/CERN)

O fim do mundo não está próximo, afinal. Frustrando as previsões de alguns teóricos, buracos negros microscópicos até agora não apareceram dentro do Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês), revelaram alguns de seus cientistas.
O resultado, que será postado nesta semana no arXiv.org, surge no mesmo momento em que os pesquisadores fazem planos para manter o LHC funcionando até o final de 2012, e não de 2011 como anteriormente programado. O colisor de 27 quilômetros do laboratório de Física de Partículas CERN, próximo de Genebra, na Suíça, já suportou atrasos e um acidente que o paralisou, antes de finalmente entrar em funcionamento no final de 2009 e os físicos agora dizem que a máquina está operando acima das expectativas.
As previsões de que mini-buracos-negros se formariam em energias de colisão de alguns teraeletronvolts (TeV) eram baseadas em teorias que consideram os efeitos gravitacionais de dimensões extras de espaço. Apesar de se esperar que os buracos evaporassem rapidamente, alguns sugeriram que eles poderiam se sustentar tempo o bastante para consumir o planeta. Mas os cientistas do detector Solenóide Compacto de Múons (CMS, na sigla em inglês) afirmam que não encontraram sinais de mini-buracos-negros em energias de 3,5 a 4,5 TeV. O físico Guido Tonelli, porta-voz do detector, calcula que por volta do final de sua última operação o LHC esteja pronto para excluir a criação de buracos negros quase completamente.
A descoberta é apenas uma de uma torrente de artigos recentes saídos do LHC, que foi possível pelo inesperado alto desempenho da máquina. “Ficamos surpresos com o quão bem a máquina se comportou quando nós começamos a levá-la ao limite”, comemora Steve Myers, o físico do CERN que supervisionou as operações do LHC este ano. Como conseqüência, os físicos estão cada vez mais otimistas em relação ao fato de serem capazes de detectarem o elusivo bóson de Higgs mais cedo do que se esperava. Acredita-se que a partícula, que é o desafio mais bem conhecido do LHC, e o campo a ela associado confiram massa às demais partículas.
Inicialmente, os físicos não tinham certeza sobre o LHC ser capaz de criar e detectar o Higgs com as energias atuais da máquina e os administradores do CERN haviam planejado um hiato de 15 meses a partir do início de 2012 para uma atualização que permitira ao colisor funcionar a energias mais altas. No entanto, um consenso crescente afirma que mesmo sem a atualização, o LHC será capaz de explorar a maior parte do espectro energético no qual uma partícula de Higgs padrão pode ser encontrada. Sergio Bertolucci, diretor de pesquisa e computação do CERN, adiciona que também há razões políticas para prolongar o funcionamento da máquina. O segundo maior acelerador de partículas do mundo, o Tevatron do Fermilab em Batavia, no estado americano de Illinois, está mordendo os calcanhares do LHC enquanto acumula cada vez mais dados em sua própria caçada ao Higgs. Além disso, o provável sucesso do LHC poderá influenciar os planos europeus para a Física de Altas Energias, bem como para um plano global para a próxima geração de aceleradores lineares. Ambos enfrentarão grandes decisões orçamentárias nos próximos anos.
O plano para extender o funcionamento do LHC será discutido em uma reunião de administradores do LHC em Chamonix, na França, no final de janeiro, com uma decisão final sendo esperada pouco depois.


quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Exoplanetas lançam dúvidas sobre teorias astronômicas

Planetas de outros sistemas solares estão para mudar as idéias sobre como os mundos se formam




Quatro gigantes gasosos, todos mais massivos que Júpiter, orbitam o sistema estelar HR 8799, mostrado nesta imagem do telescópio Keck II. (Créditos da Imagem: NRC-HIA, C. Marois & Keck Observatory)
 


Os astrônomos que estudam como os planetas se formam estão coçando a cabeça depois que dois estudos mostraram que nem tudo é como prevê a teoria no mundo dos mundos de outro mundo.
Os artigos, ambos publicados online na Nature hoje (08/12), se referem a planetas fora de nosso Sistema Solar. A existência de um confunde as idéias atuais sobre formação de planetas, enquanto as medições da atmosfera do outro põem em dúvida as teorias sobre a composição atmosférica e sua relação com o interior do planeta.

Como nascem os planetas

O primeiro desafio foi proposto por Christian Marois, um astrônomo do Instituto Herzberg de Astrofísica em Victoria, no Canadá, e por seus colegas, que usaram o telescópio Keck II em Mauna Kea, no Havaí, para localizar um quarto planeta no sistema estelar HR 8799, a mais ou menos 39 parsecs (129 anos-luz) de distância da Terra.

O planeta, HR 8799e, é um gigante gasoso bastante parecido com Júpiter, mas cerca de 10 vezes mais massivo – similar aos outros três planetas do sistema, os quais Marois descobriu em 2008. Ele está localizado bem perto de sua estrela, a 14,5 unidades astronômicas (AU ou UA; uma UA é a distância média entre a Terra e nosso Sol. Saturno está a aproximadamente 9,5 UA de nosso Sol e Urano está a uma distância de aproximadamente 19,6 UA). Os outros planetas no sistema HR 8799 estão a 24, 38 e 68 UA de sua estrela, respectivamente.

A relativa proximidade de HR8799e com sua estrela torna difícil explicar como ele e seus companheiros gigantes gasosos se formaram. “Tem algo estranho acontecendo”, avalia Marois.
As teorias atuais sugerem duas formas pelas quais um anel de poeira gasoso ao redor de uma estrela jovem pode se transformar em um planeta gigante gasoso. Na primeira – o modelo de ‘acreção’ – pequenos aglomerados de poeira se acumulam durante milhões de anos para formar o núcleo sólido de um planeta, que então atrai gases para si. O outro modelo, de ‘fragmentação’, sugere que pequenos aglomerados de um disco gasoso se formam diretamente em planetas com mais de 10 mil anos.  

Nenhum dos modelos explica, sozinho, todos os quatro planetas ao redor de HR 8799. O modelo de acreção não consegue responder pelos três gigantes gasosos externos. Considerando suas distâncias da estrela, o núcleo planetário rochoso teria levado tanto tempo para se formar que o disco gasoso teria se dissipado antes que pudesse ser atraído.

Por outro lado, de acordo com a teoria, o processo de fragmentação se adéqua aos planetas externos, mas não ao interno. Laird Close, um astrônomo da Universidade do Arizona, em Tucson, explica em um comentário que acompanha o artigo de Marois que isso acontece porque a 14,5 UA o disco gasoso teria sido muito quente e teria rotacionado muito rápido para que um aglomerado se formasse.

Marois acredita que apenas um – não os dois – dos mecanismos de formação pode ser responsável pelo sistema, porque os planetas têm massas semelhantes e parecem estar travados em ressonância orbital, o que significa que os tempos que demoram para orbitar a estrela está relacionado em proporções, mais ou menos da mesma forma que a freqüência das notas musicais em um piano. Ele sugere que os planetas provavelmente  migraram para suas posições atuais depois de se formarem.

No entanto, Melvyn Davies do Observatório Lund, na Suécia, que trabalha com teorias de formação planetária, prefere a idéia de que os planetas permanecem onde se formaram, talvez diretamente a partir de um disco gasoso pelo processo de fragmentação. Até compreendermos mais sobre a formação de planetas, o sistema permanecerá um mistério.

A questão do carbono

Os teóricos planetários também têm um segundo problema em suas mãos graças ao trabalho de Nikku Madhusudhan, um astrofísico da Princeton University, em Nova Jersey. Ele e seus colegas deram uma olhada mais detalhada em outro exoplaneta: WASP 12b, um gigante gasoso a 267 parsecs da Terra que foi descoberto em 2009. Ao combinar medições novas com pré-existentes, Madhusudhan descobriu que há mais carbono do que oxigênio na atmosfera do planeta, algo nunca antes visto. A maioria dos modelos planetários parte do princípio de que eles [os planetas] são semelhantes aos planetas terrestres em nosso próprio Sistema Solar, com quantidades aproximadamente iguais de carbono e oxigênio na atmosfera.



 Impressão artística do exoplaneta extremamente quente WASP 12b e de sua estrela-mãe. (Créditos da Imagem: NASA/JPL-Caltech/R. Hurt (SSC) )



Madhusudhan afirma que a atmosfera de WASP 12b implica que o centro sólido do planeta não é rico em silicatos (minerais compostos principalmente de silício e oxigênio), como o da Terra, mas rico em carbono. Montanhas de diamante ou grafite poderiam existir por lá, sugere Madhusudhan, e formas de vida poderiam se desenvolver em metano rico em carbono em vez de água ou oxigênio. 

Mas é difícil traçar comparações entre WASP 12b e planetas que conhecemos, por causa da falta de dados sobre as proporções carbono/oxigênio dos gigantes gasosos de nosso próprio Sistema Solar. “O único análogo [a WASP 12b] é Júpiter. E para Júpiter, no momento, nós não temos uma resposta”, observa Sushil Atreya, um cientista planetário da Universidade de Michigan, em Ann Arbor.

A proporção carbono/oxigênio de Júpiter não pode ser estabelecida através de observações espectroscópicas, porque a maior parte de seu oxigênio está presa debaixo d’água, que se condensou fora da atmosfera porque Júpiter é muito frio. Mas esforços estão em andamento para corrigir essa falha: Atreya é um co-investigador na missão Juno, da NASA, que será lançada em 2011 e chegará a Júpiter em 2016 para mapear água e medir a abundância de oxigênio. Se Júpiter for rico em carbono como WASP 12b, isso pode significar que os pequenos corpos dos quais alguns planetas se formam em nosso próprio Sistema Solar – e em outros, também – deveriam ser vistos mais como tártaro rico em carbono do que como gelo, compara Madhusudhan.

Os resultados dos estudos, tanto de Marois quanto de Madhusudhan, estão prestes a encontrar muito mais anomalias para os caçadores de planetas – e eles cobrem apenas alguns, das centenas de exoplanetas que foram descobertos e estão prontos para análise. “Nós ainda temos muitas perguntas mas, até agora, muito poucas respostas. Nossa comunidade tem muito trabalho pela frente”, conclui Marois.

  • Referências

sábado, 4 de dezembro de 2010

Mercúrio serve uma surpresa nuclear

Por Eugenie Samuel Reich 


A descoberta de um novo tipo de fissão vira um princípio da teoria nuclear de pernas para o ar

Fonte: Nature

A observação de uma reação nuclear inesperada, causada por um isótopo instável do elemento mercúrio , gerou um quebra-cabeça raro. O enigma está ajudando os teóricos a enfrentar um dos problemas mais complicados da Física: desenvolver um modelo mais completo do núcleo atômico.

A fissão nuclear, o processo no qual um núcleo mais pesado do que o do ferro se quebra em pedaços, é geralmente observada como sendo simétrica, com os fragmentos resultantes tendo mais ou menos o mesmo tamanho. Apesar de instâncias de fissão assimétrica serem conhecidas, elas são normalmente atribuídas à formação preferencial de núcleos ‘mágicos’, na qual as camadas da estrutura nuclear são completamente preenchidas. 
Assim, quando os pesquisadores do experimento ISOLDE no CERN, o laboratório europeu de física de partículas em Genebra, na Suíça, resolveram estudar o decaimento do mercúrio-180 – contendo 80 prótons e 100 nêutrons – eles esperavam que o elemento se partisse em dois núcleos de zircônio-90, cada um contendo 40 prótons e 50 nêutrons. Eles acreditavam que o resultado seria especialmente favorecido pelo fato de 40 e 50 serem números mágicos, com os quais as camadas ficam exatamente preenchidas.
Mas o mercúrio causou uma surpresa dividindo-se, em vez disso, em rutênio-100 e criptônio-80. “Uma divisão simétrica deveria ser dominante e nós mostramos que ela não acontece”, afirma Andrei Andreyev, membro do ISOLDE, atualmente da Universidade do Oeste da Escócia (University of the West of Scotland) em Paisley. O resultado está no prelo da Physical Review Letters.

Feixe puro

O ISOLDE é o único capaz de criar feixes puros de elementos pesados instáveis, cujos produtos de reação podem ser coletados e estudados. Andreyev e seus colegas começaram com um feixe de tálio-180. Esse elemento costuma decair ao capturar um elétron, transformando um de seus 81 prótons em um nêutron para formar mercúrio-180. Esse mercúrio, então, realizou o inesperado ato de se dividir em duas partes de tamanhos diferentes. 
O teórico Peter Möller do Laboratório Nacional Los Alamos, no Novo México, acredita ter uma explicação. O cientista usou um modelo nuclear que ele e seus colegas desenvolveram em 20011, e explica que a chave era considerar não apenas a estabilidade dos fragmentos finais, mas também a estabilidade de núcleos com formas diferentes que ocorrem como divisões do mercúrio-180.
Anteriormente, Möller havia explorado detalhadamente apenas a fissão de núcleos mais pesados que o mercúrio, que tendem a se dividir simetricamente. Porém, após o resultado do ISOLDE, ele aplicou seu modelo a isótopos mais leves e ficou surpreso ao descobrir que o modelo prevê divisões assimétricas para o mercúrio-180 bem como para vários outros núcleos instáveis.
Comparando as massas dos núcleos de tálio e mercúrio, o modelo gera uma previsão de que capturar um elétron deixaria o núcleo do mercúrio com 9,5 mega-eletronvolts de excesso de energia. Os cálculos de Möller mostram que, para se dividir simetricamente, seria necessário que atravessasse uma barreira de energia de 10,5 mega-eletronvolts.
Uma divisão assimétrica, em contraste, requer muito menos energia. “Exatamente porquê é assimétrico nós não podemos dizer, mas é um equilíbrio bastante delicado entre tensão de superfície, carga eletrostática e forças nucleares”, avalia Möller. Ele agora está aperfeiçoando e automatizando seu modelo para poder predizer as divisões de núcleos mais leves que os de mercúrio.

Fortalecendo a fissão

O teórico nuclear Witold Nazarewicz da Universidade do Tennessee, em Knoxville, declara que o estudo demonstra a dimensão de tudo o que ignoramos no processo de fissão nuclear, mais de 70 anos depois da descoberta do processo. “Essa é uma informação muito importante para qualquer modelo do núcleo [atômico]”, considera ele.
Nazarwicz observa que apesar de o conhecimento prático que os engenheiros têm da fissão ter progredido o suficiente para podermos construir bombas e reatores nucleares, “Eu não acho que temos uma compreensão profunda da fissão, baseada nas interações dos blocos fundamentais dos prótons e nêutrons”. Os núcleos que se formam no interior de um reator comum são geralmente compreendidos, mas os modelos não estão no ponto de poderem extrapolar para isótopos mais exóticos e instáveis, avalia ele. Uma melhor compreensão fundamental da teoria pode ajudar a projetar os reatores das gerações futuras.
Instalações experimentais programadas para começar a funcionar na próxima década devem permitir mais estudos com núcleos instáveis. Essas instalações incluem a Instalação para Pesquisas com Antiprótons e Íons no Centro Para Pesquisas com Íons Pesados GSI Helmholtz em Darmstadt, Alemanha, que custou 1 bilhão de euros (ou 1,3 bilhões de dólares) e a Instalação para Feixes de Isótopos Raros na Universidade Estadual de Michigan em East Lansing, de 600 milhões de dólares.
  • Referências
    1. Möller, P., Madland, D. G., Sierk, A. J. & Iwamoto, A. Nature 409, 785-790 (2001).

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Incerteza quântica controla 'ação à distância'

  • Para histórias semelhantes, visite o Guia de Tópicos do Mundo Quântico 


Albert Einstein não gostava de duas coisas na teoria quântica: o fato de sua inerente incerteza e sua asserção de que as partículas podem permanecer estranhamente conectadas mesmo quando separadas por grandes distâncias. A primeira ele descartou com a frase “Deus não joga dados” e a segunda ele chamou de “ação fantasmagórica à distância”.
Agora, um par de físicos está dizendo que esses dois efeitos estranhos estão intimamente ligados – e que a própria incerteza limita o quão “conectadas” as partículas separadas podem ficar.
Quando duas partículas distantes que estão quântico-mecanicamente ligadas, ou emaranhadas, são medidas, os resultados são mais semelhantes do que prediz a Física clássica. “A natureza é não-local”, afirma Sandu Popescu da University of Bristol. “Essa é, provavelmente, a lição mais importante da teoria quântica”.
Mas esses links não-locais não são tão influentes quanto se pode esperar. Popescu e seu colega Daniel Rohrlich, agora na Universidade Ben Gurion em Israel, calcularam, há 15 anos, que as leis da Física poderiam permitir uma coordenação ainda mais forte entre sistemas distantes, levando os físicos a se perguntarem por que a teoria quântica não vai tão longe quanto poderia.
Jonathan Oppenheim da University of Cambridge, no Reino Unido, e Stephanie Wehner da Universidade Nacional de Cingapura, sugerem ter encontrado uma pista. O segredo, sugerem eles, reside em outra famosa propriedade do mundo quântico – sua incerteza inerente.



'Ainda mais fantasmagórico’

Na teoria quântica, os estados de um sistema quântico nunca podem ser definidos com precisão. O Princípio da Incerteza, por exemplo, implica que qualquer esforço para medir a posição de um elétron significa abandonar o conhecimento de sua velocidade. E vice-versa.
Usando a teoria da informação, uma ferramenta central da ciência da computação que quantifica quanta informação está contida em qualquer estrutura, Oppenheim e Wehner estudaram como a quantidade de incerteza em uma teoria deve influenciar as possibilidades que ela apresenta em conexões não-locais.
Teorias hipotéticas que não contenham incerteza alguma, descobriram eles, poderiam possuir coordenação entre sistemas distantes tão fortes quanto o limite calculado por Popescu e Rohrlich. “A mecânica quântica poderia ser ainda mais fantasmagórica”, observa Oppenheim. “Mas o Princípio da Incerteza de Heisenberg impede que isso aconteça”.
Os resultados não sugerem qual mecanismo físico subjacente ligaria a incerteza à não-localidade. No entanto, como os resultados se baseiam apenas nas idéias da teoria da informação, eles não devem se aplicar somente à teoria quântica, mas a qualquer futura teoria concebível também, calculam os autores.
“Essa é uma idéia muito original e importante”, avalia Popescu. Mas ele avisa que essa, provavelmente, não é a palavra final em porque a teoria quântica não é mais não-local do que já é. “Esse trabalho não resolve o problema afinal”, pondera. “Mas vai em uma direção bastante nova”, contribuindo para outras possíveis explicações que os físicos têm explorado nos últimos anos.



Plantações Geneticamente Modificadas Recebem a Benção do Vaticano


Por Ewen Callaway


Papa Bento XVI (cortesia da Wikimedia Commons)



A Igreja Católica descobriu-se do lado errado da ciência quando condenou o Universo Heliocêntrico de Galileu em 1616, fato pelo qual se desculpou 380 anos depois. Será que esse fato estava na mente da Pontifícia Academia das Ciências quando da publicação, nesta semana, de uma declaração de 15 páginas dando sua bênção às plantações geneticamente modificadas (GM)?
Talvez não, mas o relatório da Academia claramente mostra a engenharia genética (EG) como uma aplicação benéfica de ciência e tecnologia, com poucas objeções. “Não há nada intrínseco ao uso de tecnologias de EG para a melhoria de plantações que tornaria as plantas em si, ou os produtos alimentícios resultantes, perigosos”, afirma a declaração.
A declaração foi resultado de uma reunião da Pontifícia Academia das Ciências em maio de 2009. É uma continuação de um documento publicado em 2000 que também saiu em favor de plantações GM, apesar de temporário. Desde então, pesquisas revisadas por especialistas e experiências com o plantio GM tornou esse tipo de plantação ainda mais interessante, de acordo com a Academia.
Plantações GM, como o milho resistente a insetos, resultaram em mais produtos e menos uso de pesticida; uma bênção para os fazendeiros pobres. Plantações como as de Arroz Dourado, que é fortificado com precursores da vitamina A, podem auxiliar a combater a deficiência desse nutriente. Enquanto isso, plantações resistentes a secas e inundações podem ajudar a lidar com as mudanças trazidas pelo aquecimento global, observa a declaração.
A Academia também criticou a “regulação excessiva, não-científica” de plantações GM e pediu aos países para “padronizar” e “racionalizar” o processo de aprovação de novas variedades de plantio. A declaração também pediu para que se repense o Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança, que permite aos países banir a importação de produtos GM sob certas condições.
A declaração, apoiada pelos sete membros da Pontifícia Academia das Ciências, bem como por 33 outros cientistas presentes na reunião, também se livra da preocupação de que as plantações GM sejam o mesmo que brincar de você-sabe-quem: “[N]ovas formas de intervenção humana no mundo natural não deveriam ser vistas como contrárias à lei natural que Deus deu à Criação”, diz o documento.